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sexta-feira, 2 de maio de 2008

não voltarás a sentar-te onde me sento agora, na cadeira
a mesma cadeira, como quem joga os mesmos números a confiar na sorte
o olhar poisava nos telhados dos velhos armazéns atravessados pelo tempo
agora quintais envelhecidos pelo mesmo tempo
já sem tanques pintados de amarelo, já sem roupa, sem cigarros, sem horas tardias e sem

a gaze do fundo
sem o pano de boca
e as palavras mergulhadas em éter para não perderem a forma
e o formol injectado no coração da gaivota e ela a fechar os olhos devagar, a perder a força
já não me abres a porta e as malas para voltar a fechar e pôr tudo no lugar

o lugar vazio onde me sento sem força a fechar os olhos devagar
a Mimi foi embora para outro quintal à procura da morte
e tu a perguntares pelas máscaras, pela Maria que odiava a mãe e boiava sem vida num bocado de rio
tocas para mim no piano da tua avó o silêncio ermo
tinhas os dedos de criança e com eles escrevias os restolhos das cabras e da noite
o asfalto tem fome de ternura
não voltarei a cair em tentação

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

RESGUARDO
Foto de Henrique Toscano
Quero-te num poema.
Viva e transfigurada,
Sentada
No banco dum jardim
De versos outonais,
A ver nos horizontes irreais
Sumir-se o tempo, o burlador
Do amor,
Que diz que volta, mas não volta mais.

Miguel Torga

domingo, 23 de setembro de 2007

bom dia, Lou....

foto de Hugo Batista

....ainda....



terça-feira, 18 de setembro de 2007

tears
foto de Hugo Batista

segunda-feira, 2 de julho de 2007

"NEVER SO SWEET WAS WAITING"
William Shakespeare in Romeu e Julieta
.
Moçambique, 1969

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Era uma vez...

Era tão verde que quase parecia uma sopa verde. Nunca tinha visto uma cor tão indefinida. Hoje seria cinza escuro. Uma sopa cinza feita das cinzas dos teus cigarros seria espantosa.
A mulher da tabacaria da esquina que vendia revistas, flores e molhos de couves teria ficado bastante contente se não a tivesses trocado pelo Sr. Joaquim da sapataria a quem compraste os dez quilos de maçã reineta que estavam em promoção. Ele sabia que Converse era a tua marca preferida.
Anunciei com um enorme prazer a minha chegada. Sentei-me à mesa e o frio passava-me por trás das costas. Enrolei-me na manta da lã churra da única ovelha que ainda nos pertencia. Tu, de cabelo aprumado e trajado de festa, usavas as amarelas. Ficavam-te bem nos pés. Pintei-te, assim de memória, na tua posição de sempre enquanto fumavas e tomavas a tua caneca de café quente. A marca sempre te preocupou. Era Converse a que mais gostavas. Mas havia outras: Delta – horas e horas a olhar para ti a olhares para o castanho muito escuro, ainda no fundo da caneca, mas já frio. Na frente uma sopa verde e muito quente já passada em forma de puré, sem pingo de azeite, embora o azeite fosse verde.
Serviste-me devagar enquanto eu entoava uma canção. Dizias que eu cantava bem. Eras bem-humorado.
A minha bicicleta estava na cozinha ao meu lado, mas ao contrário da sopa, era cor-de-rosa – cor que a sopa nunca poderia ter. Didiapondas estava sentado no selim da bicicleta e olhava intrigado. Fazia sempre gestos estranhos quando te via. “É amoroso!” dizias tu enquanto cuspias o pedaço de batata que tinhas encontrado no pudim. Fizeste-o tão violentamente que ficou esborrachado no vidro da porta ao fundo do corredor. O pudim era de cozido à portuguesa, bem como o gelado, que tinhas a mania de comprar só para me chatear. Mas eu bricava contigo: fazia as malas e partia com todas as embalagens presas por um fio, preso à minha mala. Assim, iam escada a baixo e rua a baixo a tilintar. E tu, vestido com uma t-shirt de manga curta sobre as minhas calças à boca-de-sino que tinhas a mania de usar, corrias desalmado atrás de mim para que pelo menos te deixasse os pudins. Didiapondas ficava em cima da bicicleta como garantia de que eu ia voltar. Garantia essa que tu nunca entendeste. Depois de darmos algumas voltas ao quarteirão entravamos em casa esbaforidos. Sentávamo-nos de novo à mesa e riamos ainda do estranho e raro acontecimento. Começávamos a deixar recados no papel que havia no meio da mesa, tentando cada um escrever as frases viradas para o outro. Já estávamos com fome. Já tínhamos feito o ritual de preliminares e estávamos prontos. Bem no ponto! Perguntavas sempre primeiro se eu queria e eu respondia sempre: “Quero se tu quiseres.” Sorrias e servias-me o valente prato de sopa e para ti punhas a mesma quantidade, sempre igual, sempre bem dividido.
Olhaste-me e disseste: “Hoje a sopa é diferente”. Eu provei e acusei de imediato um leve travo amargo mas de seguida o gosto a verde e depois não sei o quê de doçura (aqui, talvez estivesse o açúcar das tuas mãos). Era divinal. E até hoje não sei o que tinha aquela sopa. Didiapondas, embora não gostasse de ti e talvez nunca viesse a gostar, jamais mo disse. Apesar de ser o meu fiel verme de companhia não seria capaz de delatar fosse quem fosse. Assim, chamei à sopa o meu nome : sopa de maçã reineta.

quinta-feira, 29 de março de 2007

...o mercador de uma [talvez] Veneza...
era uma vez numa rua de Mumbai

o rapaz azul que vendia colares de pedras e brincos de pérolas

sábado, 17 de março de 2007

[o meu medo era voltar-me]
...rodar sobre o próprio eixo e, sem me aperceber, a música começar a tocar outra vez...

sábado, 25 de novembro de 2006

AS MÃOS
caneta rollerball sobre papel



ao António Quadros
Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.

Sebastião Alba

sábado, 14 de outubro de 2006

Well, I am a young man and I believe in God
And I button my shirt right up to the top
And I read when I can, in the shade of the trees
And I buckle up good
And I always say please
But the wolf is at the gate and I’m reflected in his eyes
And his teeth are broken glass

His mercy is a lie
And when it snows, all the details disappear
And the days are long and grey
And the lights come on at 3
And the road down to the pharmacy - well, it may be beautiful but it’s a trap