Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de março de 2009


sábado, 31 de janeiro de 2009

dissecar


Havendo o vento, pouca coisa há.
Um dedo açucarado
[1] se derrete
mexendo a minha vida como o chá.
Sobram notas de chuva de um trompete

Ao dizer, sei lá porquê, sei lá?:
“É isso, a história quase se repete”.
(Tenho um gato cor de rosa, como o Xá,
e alimento-o a damascos e sorvete).
..

Eu sempre fiz aquilo que não quis
mas sempre o que tive de fazer
me deixou constrangido e infeliz. ..

Hoje mesmo, farei o que puder.
E só coloco as mão nos quadris
para abrir mais os olhos ao morrer


[1] O teu… com que provas tudo!!


in Sonetos Perversos, Joaquim Pessoa

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

aos que partem



Cântico IV


Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

(esta é uma história minha e que conto em segunda mão)

Vou começar por falar do meu avô, ele, pai da minha mãe e filho de um republicano e de uma católica. Este homem que nasceu em Afife numa casa de lavoura não muito abastada mas com o seu quinhão, veio em 1907, com oito anos, para o Porto, como era uso na época, para trabalhar nas obras. Os tempos eram difíceis e os rapazes tinham de aprender de pequenos a arte. Claro está que da arte só os que levavam jeito aprendiam. O meu avô não era só jeito, mas fibra, e a tal da arte levou-o a conhecer o mundo. Fez-se homem e fez-se à vida. Era duro e sabia ler. Lia bem demais.
Com ele aprendi a amar os livros e a querer ler o que os outros não liam.
Quando nasci já ele vivia em casa no sossego da família e andava perto dos setenta. Morreu aos oitenta e um, vítima de doença quase prolongada, numa manhã de um Outubro ainda quente.
Era forte e fibroso. Bonito. Lembro-me que se vestia, todas as tardes, com fato completo e botões de punho

Hábitos de uma capital de muitos anos. A casa na Graça, depois Benfica, a Travessa dos Arneiros, a carpintaria de móveis, as noites de teatro, as férias de verão em Afife, a minha mãe pequena, a minha mãe órfã de mãe, a minha mãe namoradeira.

e ia até ao café junto da estação dos caminhos de ferro para a cavaqueira com os companheiros da política. Sempre aprumado. Sempre lavado e cheiroso. À noite, em casa, conversava com o meu pai e quando a minha mãe tentava acrescentar palavra, feminista como pretendia ser, ele respondia em tom solene, muito embora brilhasse uma ponta grossa do orgulho que sentia por ela: "a menina não foi chamada ao assunto e isto é assunto de homens." Respeito era bonito e ele gostava. Quisera que ela fosse professora, médica ou qualquer outra coisa e não, como dizia, "empregada do marido." A minha mãe tonta, como são tontas as raparigas, engravidou de mim aos dezoito anos e não quis continuar a estudar. Casou com o meu pai, que de imediato marchou para Moçambique, e ficou comigo e com o meu avô.
O meu avô dizia-me sempre para fazer mais além, para querer mais além, para ler mais além

Lá em casa ainda (e espero que para sempre) estão nas estantes "Felizmente Há Luar" de Stau Monteiro, "O Judeu" do Santareno e deles outros e uma velhíssima edição de "O Capital". Este está forrado com papel azul-escuro de data desconhecida.
e eu fui mais além da curva da estrada.
.
O meu avô, ainda jovem, viu a casa-mãe ser vendida em praça pública. A minha bisavó, após a morte do pai e a fuga do marido para o estrangeiro, viu-se a braços com a casa e quatro filhos. Daí à falência foi um passo. A casa foi vendida ao ferreiro que, por sua vez, anos depois, perdeu a dele também em praça pública. O meu avô já homem propôs rematar a casa do ferreiro com a condição de uma troca, o que foi imediatamente aceite.
.
E foi assim que nasci na casa que o meu bisavô construiu e que ainda hoje permanece na família e tem paredes de granito e muitas histórias para contar.
É para lá que vou todos os fins-de-semana, ou melhor, sempre que tenho tempo. Corro para manter aquela casa na família e incutir no meu sobrinho de seis anos esse espírito de lealdade para consigo e para com as raízes.

Não falo de bens materiais, falo da história que se faz a cada momento, em cada pedacinho. Falo da vida e das coisas importantes.
Talvez seja a consciência destes vínculos que me faz falar uma linguagem lá de longe.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ATÉ PARA O ANO

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

1966

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Uno vuelve siempre
A los viejos sitios
Donde amó la vida

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008